Os moradores dali me conhecem e me protegem. Estou no meio da Serra Grajaú- Jacarepaguá num boteco dentro da comunidade, mais na parte externa do que pro alto do morro. Parece que sempre paro por ali, no meio. Não lembro do bar, mas seu dono me conhece.
Hoje eu estava tomando uma garrafa de Sprite, daquelas de vidro, quando assisti uma cena agressiva que acontecia no outro lado da Avenida. Um garoto, talvez um homem com atitude adolescente, bem apessoado, montando ainda em sua bicicleta mirou o guarda-chuva que carregava, daqueles do tamanho de uma bengala, no rosto de outro que passava na calçada rente à subida do morro, próximo a um ponto de ônibus. Parecia uma ameaça, um aviso, então virei o rosto pro outro lado, pois não queria ver o que estava prestes a acontecer, sei que ele apertou o botão do guarda chuva automático que, quando disparado, socou o rosto do abordado.
Tentava me distrair conversando com os sentados no bar, queria passar despercebida e fingir não ter visto absolutamente nada. Minha preocupação se desfez quando alguém me abraçou por trás. As mãos, pela quantidade de anéis, me deram a indicação de que não era uma pessoa familiar. Ele me soltou e me girou de frente pra ele pelas mãos, era o mesmo garoto da bicicleta. E ele disse: “Ô, Coisa linda!”. Eu ri sem graça disfarçando o medo.
Embora algumas pessoas me conhecessem por ali, eu ainda era uma ave fora do ninho, ainda recebia olhares furtivos. As pessoas do bar, não se exaltavam com a mesma facilidade que eu, todos já estavam conversando.Ele pediu o número do meu telefone e ligou na mesma hora para conferir se eu tinha palavra. O dono do bar, tentou distraí-lo para que eu pudesse ir embora e o garoto desconhecido me esquecesse, eu já estava de saída.
Olhei o celular e vi que ele não tinha ligado para conferir e sim me enviado uma mensagem para iniciar um jogo, que custava 2 reais para aderir ao serviço. Ele dividiu o Sprite comigo sem ser convidado. Eu disse que já era hora de ir e ele perguntou para onde. Queria mentir, mas como tinha certo medo do que ele pudesse fazer, resolvi dizer meias verdades, omitir detalhes. Eu estava indo pra faculdade que fica de um lado e que morava do outro. Ele era carinhoso como se me conhecesse, e nisso, eu me sentia protegida ao lado dele.
Quando estava pra sair, ele disse entre os dentes ”me segura, me segura!”, fechando os olhos com força. Vi que estava controlando a raiva, como se quisesse não fazer uma coisa feia, uma maldade na minha frente, como a que eu o vi fazendo anteriormente. Alguém passou do outro lado da avenida, mas não cheguei a olhar quem era. Eu e o dono seguramos suas mãos cerradas, cada um de um lado enquanto ele estava encostado no muro que dividia o terreno do bar com a casa de trás. Quando ele abriu os olhos meu sonho acabou.
Visito a Serra Grajaú-Jacarepaguá em meus sonhos. Parece que quando passo pelo percurso de um lado para o outro, sempre dou uma paradinha perto do meio, talvez mais próximo à descida do que da subida, pois as escadas da comunidade parecem próximas ao pé da serra, no sentido Grajaú. Dá pra ir a pé, mas só cheguei lá embaixo uma vez em outro sonho. Nesse, eu vinha no sentido contrário, pelo Grajaú, e a curiosidade me fez descer do ônibus ali no meio para conhecer. Fiquei vendo o artesanato que as casas vendiam e conforme ia descendo via mais, até que cheguei no pé da Serra. Nesse dia, lembro de não poder voltar, alguma coisa ruim impedia a volta.
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