novembro 02, 2009

Carta ao tempo

Tempo ingrato! Como lhe chamo diante dessa cama-de-gato em que me encontro?

Você abstraiu tudo de concreto do que consegui concretizar das minhas abstrações, das minhas boas e melhores abstrações. Trancou no cofre dos seus segredos do passado e perdeu a chave pelas traças da memória. Não encontro mais senhas nas lembranças que me deixou roídas. Julga-me fugaz, mas sei que me passeia pros braços do esquecimento, da morte dos pensamentos que há de me levar.
Sei que não há subterfúgio, por isso só peço que salve minha felicidade, agora e sempre. Sabe que eu a amo e sem ela não sei viver. Da mesma forma, o que seria dela sem o andar de mãos dadas com minha tristeza? Não posso deixar que a leve contigo. Minha felicidade me pertence, sou possessiva, então me devolva, deixe-a ficar.
Não gosto de brincar de cabo-de-guerra. Egoísmo meu querer tudo que é meu e se o que “foi meu” tiver que deixar de existir, que deixe de existir. Pois não existirei mais pra você quando me entregar pro novo tempo. Esse estranho que não conheço e não sei quais são seus caminhos, esse que eu tenho medo de encarar, porém, devo admitir a ansiedade que me consome por encontrá-lo, agora que você não me quer mais.
Talvez eu releve a atitude de abandono do senhor, caso eu passe a encará-lo como amigo. Reconheço que o maltratei ora ou outra do passado e ainda assim, vejo que me dá o braço, me dá apoio, para que eu chegue ao novo tempo sem tantos tombos. Mas sei também que é o dono de muitos, dono de muitas, e que ninguém tem sua posse. É o amante dos que querem a monotonia e estabilidade, e o vilão das histórias sem piedade, cheias de saudade. Gosta de fazer coleções de sentimentos das pessoas que te querem bem.
Sabe, às vezes acho que o senhor já caducou faz tempos, tanto que precisa de números para se vestir!

agosto 16, 2009

Alice da Luz

Entra luz pela janela, enquanto ela nina a cria dela.
Lambe a ferida que comemora um ano da luz parida.

Abre a cortina:

Ela: “Quero seu amor pra sempre, vamos ter um filho!”
Ele: “Eu também te amo, meu amor, mas somos muito jovens...”
Ela: “Não quero abortar, prefiro ser mãe solteira a ser uma assassina”
Ele: “Pense bem, é muita responsabilidade, além do mais eu não tenho dinheiro...”

Fecha a cortina.

Os planos de festa cortam as frestas da escuridão do quarto, do vazio dela, deixada de lado. Não dera certo seu plano de prendê-lo eternamente em sua alcova com um filho. Ele se foi e deixou lhe lembranças pelo resto da vida. Ela é quem ficou presa afinal.

agosto 14, 2009

O gato e o morcego

Ambos eram sombras das sobras da noite. Negros.
No escuro, só o que rompe o silêncio familiar é que arrepia a pele.
É o que faz abrir os olhos e tentar enxergar além do que a luz alcança. O gato preto sempre se esquiva dos desconhecidos, no entanto, vira e mexe traz convidados para o jantar. Dependendo da hora, pro café da manhã. “Pobres pássaros!”, você pensa, só que dessa vez era um morcego.
Batman e Mulher-Gato têm um apelo muito mais sexy do que um felino com bigodes de asas de morcego. Você tenta salvar o pobre deixando toda sua repulsa sem precedentes, aquela que você já nasceu com e não tem a menor vontade de ir ao cerne para entender o motivo, é apenas cultural. Mas o morcego já não voa mais e o gato parece estar faminto. Fome por satisfação.
Cães perseguem gatos que perseguem ratos, pássaros, morcegos... Não chega a ser cadeia alimentar, está mais para cadeia de poder. Como os gatos gostariam de voar ou entrar nos cantos que seus bigodes esbarram! Como os cães gostariam de subir em telhados, árvores e janelas! A cobiça existe, e ninguém nunca está satisfeito com o que tem.