dezembro 25, 2008

Alameda do Purgatório

A saltitante assaltante das vibrações distraídas de caveiras comedidas percorria a alameda. Uma inocente perita, leve, alegre como sanha de liberdade magra que de estorvos só o cansaço lhe sobrava, graça do passo doada por qualquer descaso. Corriam as árvores de poucos sinônimos servindo-lhe o infinito a sua espera, enquanto por flores e seus sabores morriam frutos podres. Corada, acordara com seu pulso nunca deixar-lhe hibernar como ursos.
No futuro destino profetizado, talvez um pretérito perfeito, um tom da omissão de luz penetrou em seus olhos e lhe tirou o foco, turva visão arriscou lhe pregar peças: o caminho se estreitara, as raízes davam-lhe rasteiras e os galhos tentavam acordá-la com tapas na cara. Persistente, prosseguia esquivando-se das advertências, imediatamente cega. O trecho mais seguro, certamente, era o mais escuro, o mais perigoso. Ficar debaixo do holofote, por menos iluminado que ele parecesse, era abusar de ser alvo dos vampiros à espreita. Repare bem, não disse morcegos.
De sorte só a velhice. Agarrava-lhe os calcanhares mais e mais na medida em que a doce meliante afastava de seu propósito, e o peso de sua nova guia sugava, numa progressão geométrica, toda sua juventude, o viço de seus vícios, os vícios de seu viço.
Num último suspiro, rastejava com a esperança ralada pelo chão já estéril donde costumara pisar, dos saltos só os guardados de cor, seu infinito teve seu fim quando suas pálpebras, finalmente enfadadas, disseram-lhe sim. O aguardado de todo seu interim.

fevereiro 25, 2008

Emergente Mendigo

Nov 7 2007, 3h24

Não era dentro dum chapéu que colocavam, os tidos como fidalgos, a esmola do Mendigo. O cofre, cheio de códigos e cadeados, assustava como a presença sem precedentes de uma divindade. Todos o achavam estranho por ter gastado tanto dinheiro em um cofre enquanto passa por tantas necessidades. Passam olhando curiosamente para aquela "modernidade" nas mãos brutas do Mendigo, mas ninguém se importa para quê ou por quê.O mistério do cofre tão avançado só foi descoberto quando a velha fofoqueira da rua não conseguia mais se conter para saber, e finalmente perguntou qual era a utilidade do objeto tão seguro e moderno(caro), para simplesmente pra guardar esmolas.O Mendigo, muito arrogante, respondeu que à ela nada interessava caso não contribuísse com suas economias. A velha disse que era por uma boa causa e sacou logo a maior moeda da bolsa, e sorriu ao ver que seu pagamento adiantado surtiria efeito._"Essi cofri é sim pra eu num gastá essi dinheru purque eu queru fazê uns investimentu aí. Você realmenti acha qui eu queru essas titica di moedinha?! U dinheru tá cabanu, essas bosta qui vocês mi dão é pra eu comprá aquelas máquina de passa cartão, i si sobra algum, amandu fazÊ uma praquinha dizenu qui to aceitanu vale-refeição, vale-transporte, i tudu qui eh cartão de crédito... Depois dissu ninguém vai tê disculpa pra num dar ajuda pra eu."

O Camaleão Lamarquista

Set 25 2007, 17h51

Vivia o pobre do Camaleão escondendo-se árvore a árvore, por entre as mais diversas florestas fugindo da cruel perseguição se seus opositores, os darwinistas.O problema estava justamente na falta de comunicação. Por mudar sua cor por simples estado de espírito, a inquisição darwinista o caçava justificando que o pobre do Camaleão se utilizava de artes obscuras medievais, mas pelo contrário, o Camaleão era um darwinista mas nunca tinha tido chances de se declarar membro do partido radical emergente, pois discordava de certas cláusulas da política.O camaleão foi capturado finalmente, e quando o foram sacrificar, deram-lhe o direito a um único pedido. E assim foi feito:_"Caros amigos darwinistas, sou parte de vocês e sinto-me inojado. Meu único desejo é que, a partir dessa data, todos que aplaudirão minha morte assumam-se minimamente lamarquista, e que não tenham medo de assumir que a Natureza é nossa grande lei, e a ciência ainda está muito longe de desvendá-la, sendo assim, que a minha morte seja um marco anti preconceito, e o ínicio de uma era sem hipocrisia, pois se mudo minha cor, é porque tenho personalidade suficiente para assumir meus humores."Cortaram-lhe a cabeça, fizeram uma enorme festa de sacrifício, e no dia seguinte ninguém lembrava uma palavra que o Camaleão havia dito.

janeiro 16, 2008

entre árvores sem nomes vulgares

A singularidade de uma habitação marginal equivale-se à composição química da água em estado de fusão. Em sua pluralidade, é necessário que haja mais de uma habitação para que essa possa existir de fato, logo, habitações marginais; Várias habitações marginais em conjunto e várias moléculas de água interligadas por seu estado representam um bloco quase que maciço, que no caso da água, um iceberg, e das habitações, favela.
O iceberg é tanto um bloco marginal originário de uma parte maior e “fixa” quanto a favela é da Sociedade.
A geleira é uma área extensa de gelo, e o pedaço de gelo que se desprende de seu todo, o iceberg, só se personifica devido ao movimento lento em que a mesma se locomove, em razão da gravidade e relevo causando erosões. Esta fragmentação de seu todo em blocos marginais seguem para meios de pouca intervenção. A sociedade é a área extensa e a favela seu iceberg. Os blocos se marginalizam da sociedade de forma indireta, seja por exigências morais, seja por hierarquias econômicas.
A favela forma-se na velocidade que os icebergs se locomovem depois que se desprendem da geleira. É apenas notada quando seu crescimento atinge as margens ainda imaculadas, pois até então, sua evolução se dá de forma restrita a fim de preservar os pioneiros do movimento, os singulares. O mesmo ocorre com o iceberg. Sua área emergida representa apenas 10% de seu total, esse percentual significa dizer que representa apenas a capa do livro e não o livro inteiro e muito menos um indício de início.
A casinha na beira da área não habitada anteriormente é apenas a borda de uma área submersa entre árvores sem nomes vulgares, a ponta do iceberg, a favela.